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  » Otimista, Kanczuk projeta mais de 3% de crescimento este ano
 

» Otimista, Kanczuk projeta mais de 3% de crescimento este ano

Diretor-executivo do Banco Mundial para nove países, o economista FabiovKanczuk está "bem otimista" com as perspectivas para a economia brasileira neste ano. Enquanto a estimativa mediana do Boletim Focus aponta para uma expansão de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, Kanczuk acredita que é possível o país crescer acima dos 3%.
Entre os motivos para tamanho otimismo, estão a política monetária expansionista e "as incertezas se dissipando completamente", com destaque para o retorno dos investimentos.
O economista admite, no entanto, que por enquanto a recuperação vem decepcionando - e ele não sabe explicar o motivo.
"É aquela história que o ônibus não vem, o ônibus não vem, você está no ponto, não aguenta mais. De repente, quando vai desistir, vira a esquina e tem quatro ônibus, um em seguida do outro", diz.
Como secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda durante o governo Michel Temer, Kanczuk fez parte da equipe técnica que formulou e tentou, sem sucesso, aprovar a reforma da Previdência.
Agora, do lado de fora do governo, vê com bons olhos as chances de mudança. Parte desse otimismo vem da capacidade de articulação do secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho. Quando esteve na Câmara dos Deputados, Marinho foi o relator da reforma trabalhista - justamente umas das principais marcas do governo Temer na área econômica. "Ele foi muito bem", diz.
Se 2019 promete trazer boas notícias para a economia brasileira, o ano que vem é uma fonte de riscos, principalmente externos. Para Kanczuk, há 60% de chance de os Estados Unidos passarem por uma recessão nos próximos dois anos, principalmente em 2020.
"Isso sempre tem impacto no mundo inteiro. Não há escapatória", diz ele, responsável no Banco Mundial pelas economias de Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago.
Confira a seguir a entrevista concedida ao Valor, ontem, por telefone:
Valor: Quais as perspectivas do senhor para a economia brasileira neste ano?
Fabio Kanczuk: Minha impressão é de que o consenso não está otimista o suficiente. Estou mais otimista do que o consenso, que é de um crescimento de algo como 2,5%. Acho que será mais do que isso. As razões para eu estar otimista são: política monetária expansionista, com os juros abaixo da taxa neutra de juros; política fiscal aproximadamente neutra
- o impulso fiscal ajustado pelo ciclo [econômico] dá aproximadamente zero, então não tem muito efeito; as incertezas se dissipando completamente. Também estou otimista com [a reforma da] Previdência, acho que as coisas nessa parte inicial
vão muito bem. Uma coisa muito importante que a gente esquece é o hiato [medida de ociosidade da economia], o quanto estamos abaixo do potencial. Minhas estimativas sugerem que estamos de 4% a 5% abaixo do potencial. Esse hiato será 06/02/2019 Otimista, Kanczuk projeta mais de 3% de crescimento este ano fechado com o tempo, gerando [agora] um crescimento acima do potencial. Imagino que isso tem que levar a um crescimento acima de 3% por alguns anos. É verdade que [o crescimento] tem decepcionado, tem sido mais lento do que a gente esperava. Estamos tendo surpresas, falando que deveria ter crescido mais, mas ainda não cresceu. A questão é que esse timing, quando o crescimento ganhará força, é sempre muito difícil de acertar. O importante é que uma hora ele vem.
É aquela história que o ônibus não vem, o ônibus não vem, você está no ponto, não aguenta mais. De repente, quando vai desistir, vira a esquina e tem quatro ônibus, um em seguida do outro. É o que está aparecendo que acontecerá. Economia toda horas tem dessas coisas: você espera, espera, não aguenta mais, daí é que vem [o crescimento]. As condições estão montadas para termos um belo crescimento.
"O investimento já deveria ter retornado de forma mais intensa; uma hora o mercado de trabalho
também volta"
Valor: É difícil explicar por que essa retomada mais intensa está demorando tanto?
Kanczuk: Não sei as razões para essa demora. Uma razão que às vezes é apontada é que as empresas e as famílias estavam muito endividadas, mas essa desalavancagem já aconteceu. Há dados que mostram que as empresas já desalavancaram, que as famílias estão bem mais leves. Então não tem mais essa questão de estar muito endividado e não poder consumir.
Isso não é verdade, os dados apontam na direção contrária. No ano passado, achávamos que o Brasil cresceria 2,5%, algo assim. Daí veio o choque da greve dos caminhoneiros, que atrapalhou bastante. Mas ainda assim não consigo entender por que o Brasil cresceu menos do que deveria. Tem uma parte da razão pela qual o crescimento não vem que não estamos
conseguindo entender.
Valor: O senhor citou também o hiato. Essa capacidade ociosa grande não pode segurar um pouco a volta dos investimentos?
Kanczuk: Isso é uma discussão que acontece com frequência. Há pessoas que acham que, como tem capacidade ociosa, o investimento não vem. Mas isso não é verdade, não tem nenhum suporte nos dados. Olhando os números tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos, o fato de haver capacidade ociosa é um indicador de que o investimento virá mais forte, não mais fraco. A história vai para o outro lado. Capacidade ociosa significa investimento forte, não fraco. Há uma discussão a respeito de por que é assim, parece intuitivo [que quanto maior a capacidade ociosa, menor o investimento]. É um pouco mais complicado, porque essa capacidade ociosa está medindo outra coisa que não é o excesso de capital. Muitas vezes essa capacidade está medindo menos trabalho, não menos capital. A empresa às vezes tem três turnos, decide usar só dois. Daí ela reporta isso como excesso de capacidade, mas não tem a ver com capital, tem a ver com trabalho. Então é mais técnico,
mais complicado. Mas a resposta simples e que qualquer pessoa pode ver é que olhando para o passado, para Brasil, Estados Unidos ou outros países, se a capacidade ociosa for grande, o investimento futuro será mais forte, não mais fraco.
Valor: O senhor também mencionou que a política monetária está em terreno estimulativo. Nas últimas semanas surgiu uma discussão a respeito do espaço que há ou não para o Banco Central baixar um pouco mais os juros. Qual a sua opinião?
Kanczuk: Acho que [o nível atual de juros] está adequado. Está havendo essa discussão sobre baixar mais, mas nas minhas contas parece adequado.
Valor: Não houve queda na taxa neutra de juros nos últimos anos?
Kanczuk: Pode estar acontecendo essa mudança, mas ainda assim a política monetária está estimulativa. Você pode dizer que os juros [neutros] caíram. Talvez tenham caído, mas tanto assim [a ponto de estar abaixo da Selic], não acredito.
Considero que houve uma queda, mas dentro do meu intervalo de confiança, essa Selic de 6,5% está estimulativa e adequada, para a taxa neutra e para o hiato do produto.
Valor: O mercado de trabalho também vem demorando para reagir. Dá para esperar alguma reação mais forte neste ano?
Kanczuk: A recuperação do mercado de trabalho é sempre atrasada em relação à economia. Como a economia não reagiu com força, o que vem acontecendo com o mercado de trabalho não é surpresa. Ele está consistente com o resto da economia. O que acho é que neste ano os investimentos voltarão com muita força, o que fará com que o mercado de trabalho comece a melhorar. Mas a primeira coisa que precisamos ver são os investimentos com força.
06/02/2019 Otimista, Kanczuk projeta mais de 3% de crescimento este ano
 
Valor: O senhor estava otimista em 2017 e 2018 a respeito do retorno dos investimentos. Esse cenário se concretizou, na sua opinião?
Kanczuk: É a mesma história: uma tremenda capacidade ociosa, política monetária estimulativa, política fiscal neutra, incertezas sumindo. Não vejo por que os investimentos não voltariam com força. Tem tudo a favor disso. Não entendi por que ainda não voltaram. A gente põe desculpa na incerteza, mas em parte é desculpa. Se não sei o que aconteceu, culpo a incerteza. Mas a verdade é que os investimentos já deveriam ter retornado com mais intensidade. As razões por trás da volta dos investimentos e da volta da economia são as mesmas. Uma hora o mercado de trabalho também volta.
Valor: Os investimentos devem ser então o destaque do crescimento da economia neste ano?
Kanczuk: Sim. Quando olharmos o que mais cresceu entre os componentes do PIB, tem que ser os investimentos.
Valor: E do lado da oferta, o que pode ser destaque?
Kanczuk: A indústria pelo lado da oferta e investimentos pelo lado da demanda.
Valor: Por que a indústria?
Kanczuk: Os investimentos estão concentrados na indústria. Ela também caiu muito mais do que serviços e agropecuária, então o hiato da indústria é muito maior.
"O apelo para que a sociedade faça a reforma da Previdência é muito maior quando está todo mundo
dentro"
Valor: O cenário externo pode atrapalhar?
Kanczuk: Acho que o cenário externo vai atrapalhar em 2020, não em 2019. Para o ano que vem, está se preparando, se cozinhando uma recessão nos Estados Unidos, mas não parece ser para este ano. Está agendada para o meio do ano que vem.
Valor: Por quê? É a combinação de alta dos juros com o fim do impulso fiscal?
Kanczuk: Isso. O impulso fiscal deles será revertido, de positivo para negativo. Os juros já não estarão mais em patamar estimulativo. Daí começam outros fatores que se somam: guerra comercial, que sempre tem algum efeito; incertezas geradas pelo governo, com o "shutdown"; a bolsa de valores com os preços acima do que é considerado justo. Então aparecem diversos outros pequenos fatores que se juntam, mas o grande fator é a reversão da política fiscal. Está bastante estimulativa e começa a ser contracionista.
Valor: A postura recente aparentemente mais dovish do Fed não pode atenuar esse cenário?
Kanczuk: Concordo que o Fed percebeu esse risco e provavelmente não deixará a política monetária em patamar contracionista. Mas ela está se tornando menos expansionista do que antes. Em outras palavras, o impulso monetário, que é a mudança no impacto monetário, é negativo.
Valor: A China é uma preocupação?
Kanczuk: Não. A economia deles está desacelerando, mas não consigo identificar nada que indique uma crise na China.
Será o processo usual deles de desaceleração.
Valor: Dá para dizer qual impacto essa recessão americana pode ter sobre o Brasil?
Kanczuk: Sempre tem um impacto grande. Não há como evitar. Isso sempre tem impacto no mundo inteiro. Não há escapatória.
Valor: Voltando ao Brasil, a reforma da Previdência precisa continuar sendo a prioridade número um?
Kanczuk: Sim, a prioridade número um, não tem nada perto disso.
06/02/2019 Otimista, Kanczuk projeta mais de 3% de crescimento este ano
 
Valor: Do que o senhor tem lido a respeito do assunto, que caminho acha que o governo deveria seguir? Há espaço para insistir em um regime de capitalização agora?
Kanczuk: Sou a favor da capitalização. É preciso tomar cuidado, mas eles já estão tomando, com a transição da capitalização, com o efeito de caixa que precisa no começo da capitalização. Parece que está vindo uma proposta ambiciosa.
Não sei o quanto é verdade ou não do que foi divulgado na segunda-feira pela imprensa, mas acho que vem uma proposta ambiciosa, sim. O negociador da reforma, o Rogério Marinho, é excelente. Foi muito bem na reforma trabalhista, fez um excelente trabalho. Provavelmente fará um belo trabalho com a Previdência. Eu estou otimista, bem otimista.
Valor: Os militares devem entrar na reforma?
Kanczuk: Sim, porque o apelo para que a sociedade faça a reforma é muito maior quando está todo mundo dentro.
Valor: Presumindo que o Brasil resolva esses problemas de curto prazo, por quais reformas estruturais o governo federal deve brigar?
Kanczuk: Abertura da economia, que é bastante factível. Reforma tributária é um problema imenso, mas é preciso tentar.
É difícil, mas é preciso tentar. Acho bem mais complicado conseguir algum consenso para aprová-la no Congresso.
Abertura da economia em geral não precisa do Congresso.
Valor: Os principais benefícios dessas mudanças seriam maior produtividade?
Kanczuk: Isso. Mais crescimento, mais produtividade. A reforma tributária talvez seja a de maior impacto, mas é difícil.

Fonte: Valor 06/02/2019


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